Considerando o Descobrimento da América como o advento que marca a construção da primeira imagem de nosso continente pelo mundo europeu, podemos afirmar que esta nasce de um embate entre o “eu” e o “outro”, no qual diferentes línguas e culturas encenam o que poderíamos chamar de “o drama da alteridade”. Nele, o traduzir-se realiza-se inevitavelmente como a ação principal, que dirige e orienta um enredo, cujas ações secundárias são até hoje sentidas e vividas por nós latino-americanos. Os protagonistas deste drama, por sua vez, sempre assumiram, e assumem até hoje, papéis premeditadamente marcados e definidos, cuja hierarquia rígida não permite qualquer tipo de intercâmbio entre eles.
Assim, na distribuição de ditos papéis, temos por um lado, o homem europeu encarnando o papel do dominador, que mais que autor, apresenta-se diante do público como o dono do texto original, cujas ações traçam o que eles chamam de “projeto civilizatório”. Por outro lado, está o homem americano, mas especificamente, latino-americano, encarnando o papel do dominado, cabendo-lhe como ação principal a de copiar ao pé da letra aquele texto dito “original”. O resultado destas cópias já conhecemos: projetos transplantados, em geral rejeitados por apresentarem-se distantes de nossa realidade, das peculiaridades de nossa cultura, cuja diversidade interna já representa, por si só, uma característica a ser considerada e administrada pelos governos locais.
Frutos de imposições de culturas alheias, estes transplantes resultam assim em verdadeiros desvios ou aberrações frente aos seus “originais”, ainda que tentem nos convencer de que tudo não passa de nossa própria incompetência para a civilização. No entanto, a imagem distorcida de nós mesmos, que sempre vimos diante do espelho europeu, e mais tarde norte-americano, nunca nos agradou, motivando determinado segmento intelectual e artístico a empenhar-se na busca de imagens mais autênticas. Não desprezando várias tentativas anteriores, umas coletivas, outras mais isoladas, podemos dizer que esta busca se consolida, tanto no Brasil quanto na América Hispânica com a chegada das vanguardas.
Ainda que a relação hierárquica entre Europa e o mundo não-europeu se mantenha, ou seja, ainda que o Velho Mundo continue a desempenhar o papel de criador de textos “originais”, o processo de recepção desses mesmos textos pelo Novo Mundo se transforma, ganhando um olhar crítico e dialético, que converte a antiga cópia numa prática de tradução, ou nas palavras de Haroldo de Campos, de “transcriação” . Orientado-se pela definição benjaminiana da tradução, este autor enfatiza o lema do non serviam, ou seja, da não submissão do tradutor diante do original, que deve recriá-lo até transformá-lo em algo que lhe seja, a ele tradutor ou à língua/cultura de chegada, essencial; como ele próprio afirma:
Pois o desideratum de toda tradução que se recusa a servir submissamente a um conteúdo, que se recusa à tirania de um Logos pré-ordenado, é romper a clausura metafísica da presença (como diria Derrida): uma empresa satânica .
No caso de nosso trabalho, este Logos é a razão eurocêntrica, que deve ser profanada ao misturar-se com nossa linguagem e com as nossas formas de fazer e de dizer. Trata-se, pois, da mesma empresa, também satânica, da antropofagia oswaldiana, que digere o “outro”, aproveitando-lhe somente o que é essencial à própria cultura.
A valorização das culturas primitivas, realizada pelas vanguardas européias, com seu pensamento mágico, sua relação mais estreita com a natureza e suas experiências voltadas para a coletividade, serviram de contraponto para uma sociedade que se tornava cada vez mais individualista, e cuja racionalidade distanciava o homem dele mesmo, aproximando-o mais da máquina e de seus mecanismos autômatos.
Na América, esta mesma valorização vai servir de resgate de um passado desprezado por nossas elites como bárbaro, incompatível com o projeto civilizatório europeu. Assim, muitos de nossos escritores se dedicarão a revitalizar essas narrativas de tradição oral, cuja dimensão ficcional as tornava atraentes para um público sedento de ouvir histórias, sem deixar ao mesmo tempo de falar sobre ele, seus desejos, esperanças e medos. É, pois, dentro deste contexto que o escritor cubano, Alejo Carpentier, criará o que cunhou de o “real-maravilhoso”, e que neste trabalho pretendemos analisar como uma “transcriação” do Surrealismo.
I - A TRANSCRIAÇÃO COMO SIGNO DE ASSIMETRIA CULTURAL
Com este subtítulo, pretendemos explicitar as etapas pelas quais Carpentier “transcriou” o Surrealismo europeu no que ele passou a denominar de “real-maravilhoso”. Veremos que esta transcriação surge da consciência do escritor em relação às diferenças que separam o Novo do Velho Mundo. Diferenças sobretudo de índole histórica, que remonta à Cultura Clássica e sua conhecida divisão tripartita do mundo. Segundo esta, a terra encontrava-se dividida em três partes classificadas numa ordem hierárquica ascendente: África, Ásia e Europa, sendo esta última considerada a mais perfeita para a vida humana, ou seja, para a realização plena dos valores da cultura .
O descobrimento da América representará um novo dado empírico a ser considerado na estrutura do mundo acima referida. Nesse sentido, se por um lado a aceitação dessas novas terras como quarta parte do mundo levou à integração das civilizações indígenas no curso da história universal, por outro, não as excluiu das conseqüências da concepção hierárquica da mesma. Assim, essas culturas passaram a ser julgadas e entendidas a partir dos valores e das crenças da civilização européia, paradigma supremo e único, ao qual todos os demais povos deveriam submeter-se .
Como podemos observar, estamos diante da origem do que mais adiante redundará no que conhecemos como “eurocentrismo”, e que até hoje segue vigente no mundo moderno capitalista. No que se refere às produções intelectuais e artísticas dos povos não-europeus, este conceito terá como uma das principais conseqüências uma profunda assimetria cultural, que os reduzirá a meros consumidores do saber europeu, este sim considerado como legítimo.
Em seu prólogo ao livro Ecue-Yamba-Ó , o escritor cubano Alejo Carpentier demonstra claramente este sentimento de assimetria cultural. Ao ver-se diante da necessidade de construir uma narrativa surrealista, segundo as características desta nova estética européia, Carpentier coloca em questão um problema que afeta os artistas latino-americanos de forma geral: a obrigatoriedade de submeter-se `as modas européias para conquistar legitimidade:
Dos novelas vienen a romper, sin embargo, en menos de dos años, nuestra visión de la novela latinoamericana: LA VORÁGINE (1924) Y DON SEGUNDO SOMBRA (1926). Nacía, en nuestro continente, una novela nacionalista, vernácula, dotada de un acento nuevo (...) Ahí estaban, pues, los modelos. Ése era el rumbo. Pero ahora surgía otro problema: había que ser vanguardista.
(...)
Había, pues, que ser “nacionalista”, tratándose, a la vez de ser “vanguardista”. That’s the question... Propósito difícil, puesto que todo nacionalismo descansa en el culto a una tradición y el “vanguardismo” significaba, por fuerza, una ruptura con la tradición.”
Como podemos observar, segundo o escritor, a literatura latino-americana já havia encontrado seu próprio caminho, mas como sempre acontece, acabamos sempre interrompendo resultados frutíferos, saltando etapas, absorvendo o alheio sem ter esgotado todas as possibilidades das produções autóctones.
Será somente com El reino de este mundo , que Carpentier conseguirá responder à questão que ele mesmo se impõe na citação anterior, quando então coloca em prática o que chamará de “real-maravilhoso”. Numa crítica ao Surrealismo, o autor cubano enfatiza a artificialidade desta narrativa, cujo elemento mágico não nasce de um contexto natural, mas das mentes premeditadas de seus cultivadores. Ao contrário, o “real-maravilhoso” brota da realidade latino-americana, na qual as dimensões natural e sobrenatural da vida convivem em permanente diálogo. Tal constatação se dá depois de sua viagem ao Haiti, um país no qual a confluência do mágico e do real teve como resultado concreto uma revolução realizada por escravos e ex-escravos, e que culminaria com a sua independência.
Do Haiti para o restante da América, Carpentier “transcria” o Surrealismo europeu numa estética que traduz a nossa cultura; ao colocar a estética européia diante do espelho latino-americano, vislumbra uma imagem mais autêntica de nosso continente, por meio da qual podemos realmente falar de nós mesmos em vez de sermos falados, como comumente ocorre.
II - O “REAL-MARAVILHOSO” COMO CRÍTICA À PERSPECTIVA EUROCÊNTRICA
Com o “real-maravilhoso”, Carpentier desconstrói alguns dos mitos fundacionais do eurocentrismo , entre eles a forma dualista de pensar, que separa em pares opostos o europeu do não-europeu, o civilizado do bárbaro, o moderno do tradicional; além da idéia de raça, que a partir do descobrimento da América, passará a dividir o mundo em brancos e não-brancos, o que, por sua vez, estabelecerá a distribuição dos papéis sociais na sociedade moderna. Segundo esta distribuição, caberá aos primeiros os cargos de poder e mando, e aos demais as funções subalternas.
Estes postulados darão assim ao mundo europeu a legitimidade que ele necessita para dar continuidade ao seu domínio sobre os demais povos, já que estes, homens não- europeus, não-brancos, são por natureza primitivos, bárbaros, cabendo à civilização européia a missão de levar-lhes a modernidade. Assim, tais postulados unidos à antiga crença da Europa como a parte do mundo mais perfeita e espiritualmente privilegiada, formarão as bases sobre as quais se assentarão uma determinada perspectiva e modo de produzir conhecimento, que reconhecemos como eurocentrismo .
Em El reino de este mundo, Carpentier nos apresenta uma forma diferente de conhecer a realidade, que transcende o dualismo europeu, ao mesmo tempo que desconstrói a idéia de raça, ou seja, da existência no mundo de seres humanos naturalmente inferiores, os não-brancos.
A fim de demonstrá-lo, podemos partir da forma de construção narrativa que o escritor cubano inaugura neste livro, a qual ele cunhou de “real-maravilhoso”. Como o próprio nome indica, Carpentier mistura ficção com dados reais, imaginação e fatos comprovados por farta documentação, o mito e a razão. No cruzamento destes pares a princípio opostos está a personagem Mackandal, personagem fictício e histórico, mentor da primeira rebelião de escravos e inspiração para a futura revolução, que culminará na independência da mais importante colônia francesa, que mais tarde passará a ser conhecida como Haiti.
Ao perder um braço, Mackandal é afastado do trabalho árduo da lavoura, passando a cuidar do gado. Um trabalho mais tranqüilo, que lhe permite observar de forma mais detida e minuciosa a vida secreta do solo haitiano. Tendo como paradigma as terras africanas, que tão bem conhecia, passa a comparar as ervas que encontrava com as de África, buscando equivalentes entre estes dois mundos tão distantes, que ele tentava aproximar. Neste empenho de tradução, Mackandal descobre em solo haitiano ervas venenosas, que lhe levam a planejar a primeira grande rebelião escrava.
Ti Noel, outra personagem fundamental deste livro, e como tantos outros escravos, totalmente envolvido pelas narrativas de África contadas por Mackandal, será o seu mais fiel seguidor. Intermediário desta rebelião silenciosa, Ti Noel será o portador de suas estratégias, levando aos demais as recomendações e ordens de Mackandal, que a esta altura, todos acreditavam que era um ser sobrenatural. Com poderes licantrópicos, ele era capaz de se metamorfosear em diferentes tipos de animais, sob cujas formas poderia aparecer a qualquer hora do dia, inesperadamente, conquistando assim uma onipresença, que concedia-lhe o poder suficiente para empreender uma revolta à distância.
Certo dia, os animais das fazendas amanheceram mortos, o veneno parecia brotar da terra, o cemitério da localidade foi pequeno para dar conta da quantidade de brancos que morriam, a água tinha sido envenenada. Os senhores totalmente embriagados, pois só bebiam vinho com medo da água contaminada, açoitavam os seus escravos em busca de uma confissão, que acabou por vir por boca de um escravo medroso: foi Mackandal. No entanto, apesar de condenado à fogueira em praça pública, nenhum negro quis acreditar na morte de seu líder, e suas histórias ainda continuariam vivas por muito tempo em seus corações.
Como vemos, a tradição oral encarnada pelas narrativas de África contadas por Mackandal se confundem nesta obra com a tradição escrita, aqui representada por seu valor documental e histórico. Por outro lado, através desta personagem, que, enfatizamos, existiu de fato, Carpentier demonstra a convivência do pensamento mágico, representado pela fé absoluta nos poderes do negro Mackandal, com o pensamento racional, já que é no mínimo ingênuo pensar que um grupo social, seja ele qual for, consiga organizar uma revolta como esta sem nenhum tipo de estratégia. Constatação esta que se ratifica se consideramos que tais acontecimentos culminarão na revolução do Haiti, protagonizada por homens negros, cuja vitória sobre a raça branca nunca foi perdoada.
Resumo
O presente trabalho tem como objetivo a análise da obra de Alejo Carpentier, EL REINO DE ESTE MUNDO, em cujo prólogo o autor inaugura o conceito de real-maravilhoso. A partir das idéias desenvolvidas pelo cientista social Aníbal Quijano acerca do eurocentrismo, pretendemos apresentar a obra do escritor cubano como uma tentativa bem sucedida de crítica à perspectiva eurocêntrica vigente no mundo ocidental. Tentativa esta que acontece paralelamente ao resgate da memória africana, responsável, por sua vez, pelas sucessivas sublevações dos negros escravos que viviam no Haiti, e que redundará mais adiante na independência do mesmo. Esta é, pois, a história que nos conta Carpentier: uma mistura de ficção e realidade, que nos fala sobre a história do primeiro país da América Latina a tornar-se independente por meio de uma revolução realizada por homens negros.
Palavras – chave: eurocentrismo – negro - literatura hispano-americana
Bibliografia:
CAMPOS, Haroldo de. Deus e o Diabo no FAUSTO de Goethe. São Paulo: Perspectiva,
1981.
CARPENTIER, Alejo. El reino de este mundo. Barcelona: Seix Barral, 1984.
_____. Écue-yamba-ó. Madri: Alianza, 2002.
O’GORMAN, Edmundo. La invención de América. México: FCE, 1984.
ANÍBAL QUIJANO. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina.
In: LANDER, Edgardo. (Org.) A colonialidade do saber: eurocentrismo e
ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Trad. Júlio César C.
Barroso Silva. Buenos Aires: CLACSO, 2005.